12

FEV

Luiza Helena da Silva Christov

Instituto de Artes da UNESP e Faculdade SESI-SP de Educação

O convívio público em São Paulo

 

A primeira inspiração para falar de convívio público em São Paulo vem de Mario de Andrade, o poeta que amou a cidade como quem vive nela pensando o que fazer de melhor nela e por ela.

QUANDO EU MORRER

Mario de Andrade

 

Quando eu morrer quero ficar,

não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,

no Paiçandu deixem meu sexo,

na Lopes Chaves a cabeça

Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem

O meu coração paulistano:

Um coração vivo e um defunto

Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido

direito, o esquerdo nos Telégrafos,

Quero saber da vida alheia,

Sereia.

O nariz guardem nos rosais,

A língua no alto do Ipiranga

Para cantar a liberdade.

Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há-de vir,

O joelho na Universidade,

Saudade…

As mãos atirem por aí,

Que desvivam como viveram,

As tripas atirem pro diabo,

Que o espírito será de deus.

Adeus.

 

 

In Lira Paulistana, 1946

edição póstuma

O desejo de se espalhar pela cidade em morte sugere a vida espalhada que ele já tinha na São Paulo citada nos mais diferentes lugares.

Seu convívio era intenso, poético e político, mas principalmente público.

E essa palavra – público -  é bom que se traga para colocar ao lado da palavra convívio.

Conviver não é um viver qualquer: é viver junto, compartilhar o mesmo espaço. E o convívio público, no público, exige a distinção entre dois tipos de apropriação do espaço público.  Uma primeira possibilidade de apropriação refere-se ao apropriar-se do público como se fora seu, para uso privado,  uso exclusivo em uma perspectiva pessoal,  de interesse particular. Trata-se de invadir o público com teu interesse privado. A outra possibilidade é tornar o espaço público próprio como quem cuida e prepara seu uso para mais gente, para toda a gente. Trata-se de intensificar o espaço de conviver, de viver junto, de usufruir do público para o interesse público.

O poeta Mario de Andrade sentia que estava em sua cidade. Que ela era sua. E não para abuso privado, mas para ampliar os convívios.

Os gestores da cidade não podem abusar de seu poder e impor seus valores privados aos espaços públicos. Cada cidadão não pode tomar de assalto o que é de todos para seu uso e benefício exclusivo.

Para fechar, trago uma ideia que registrei em ensaios escritos para o projeto Centro Cultural Seu Próprio, do Centro Cultural São Paulo, em 2011.  Ensaiei que o convite para que o lugar público se torne próprio não tem a finalidade de privatizar e de permitir que se use o público como se fosse só de uma pessoa ou de poucas. O convite justifica-se para que possamos nos lançar na experiência de, em primeiro lugar, estar presente, exatamente como estamos dentro do nosso próprio corpo e, em segundo lugar, para que estejamos no encontro com outros corpos, para estarmos dentro e com: com outras vozes, outros valores, outras palavras e portanto outras histórias, outros modos de estar nos lugares.

O modo de tornar próprio o lugar público é assumir a tua perspectiva e as alheias, é estar neste lugar e deslocar-se por ele, é estar e deslizar, é estar e deixar-se mover. Estar e não se esconder: não esconder o gesto, a palavra, a história que se tem pra contar. Estar e não se esconder do gesto, da palavra e da história que necessariamente no encontro irão te contar. Aquele que se esconde do público esconde e privatiza o público aprisionando-o em si, nega a palavra e o gesto, aprisionando-se em si.  Nega o com viver.

 

20

MAI

ISTO NÃO É

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Mestre e bacharel pelo Instituto de Artes da UNESP, professor, artista, André Monteiro, o Pato, nasceu e mora em São Paulo.

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26

MAR

ISTO NÃO É

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Professora de Filosofia, militante LGBT e feminista brasileira. . É filiada ao PSOL, partido pelo qual foi candidata a vereadora de São Paulo, alcançando 9 744 votos...

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12

MAR

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10

FEV

POR UMA ÉTICA EMARANHADA.

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