Helena Cardoso Lixa - 25-JUL-2017

O CAOS QUE SUBMERGE ÁGUAS SILENCIOSAS – LAÇOS POÉTICOS ENTRE A CIDADE E O ARTISTA DA CENA

 

Utilizando-se de diários de bordo, entrevistas e memórias das artistas Mariana Muniz e Helena Cardoso, a pesquisa refaz alguns caminhos da construção das obras Trilogia Oiticica (composta pelos espetáculos Parangolés, Penetráveis e Nucleares na rua) da Cia Mariana Muniz de Teatro e Dança; e Entre Vãos, do coletivo teatral A Digna, para identificar quais são as relações éticas e estéticas travadas com a cidade de São Paulo, surgidas em ambos os processos. Por analisar trabalhos que se relacionam diretamente com a capital paulistana, o foco da pesquisa é apontar as proposições de reflexão e reestruturação surgidas em seu envolvimento artístico com a cidade, em três âmbitos: na relação das criadoras com sua própria produção; nos diálogos entre artistas e espectadores; e nas relações cidade-cidadão estabelecidas tanto pelas artistas quanto pelo público.

 

PALAVRAS-CHAVE: artes da cena; corpo-cidade; artista-espectador; Trilogia Oiticica; Entre Vãos

 

PARA LER ANTES DE NAVEGAR

 

Estas páginas são um diário de bordo ficcional, fruto de meu fazer artístico, observação e tentativa de compreensão de duas experiências artísticas que se dispõem a dialogar com as idiossincrasias da cidade de São Paulo. De tantas obras cênicas produzidas em atrito com o cotidiano paulistano, escolhi duas a partir de critérios subjetivos, os quais descrevo a seguir.

Trilogia Oiticica, conjunto de três espetáculos da Cia. Mariana Muniz de Teatro e Dança (Parangolés, Penetráveis e Nucleares na rua)1, marca a carreira de quatro décadas da atriz e bailarina Mariana Muniz como um momento de criação coletiva (em contraste aos habituais solos da artista) e de experimentação com o espaço urbano e o público passante. Parangolés (2008) foi inspirado nas obras de Hélio Oiticica que levavam o mesmo nome, vestimentas (capas, estandartes, bandeiras) que ganhavam vida a partir da movimentação do corpo dançante que as vestiam. A criação de Penetráveis (2010) também parte da série de obras do artista com o mesmo nome e explora a autonomia das formas constituintes do espaço urbano, materializadas em objetos como tábuas de madeira e tijolos.

Já Nucleares na Rua (2011)2 dá enfoque às dinâmicas corporais pautadas pelo samba em justaposição com as ruas da cidade como um espaço de criação de novas maneiras de estar no mundo. Mariana sempre foi, para mim, referência de um corpo cênico híbrido entre dança e teatro e oferecer minha reflexão acadêmica sobre parte de sua obra dá-se aqui como um tributo à sua trajetória artística.

Entre Vãos é uma experiência cênica de meu coletivo teatral, A Digna3, e uma das obras de nossa Trilogia do Despejo4, resultado da nossa pesquisa continuada sobre os efeitos da gentrificação na vida de cada cidadão e na cidade de São Paulo como um todo. Trata-se de uma obra “pulverizada”, pois tem início simultaneamente em três endereços de bairros centrais de São Paulo (Campos Elíseos, Santa Cecília e Anhangabaú) e se encerra com um ato final que reúne todos os espectadores e artistas envolvidos na Sé, marco zero da fundação da cidade. O enfrentamento com o espaço urbano – tanto em âmbito privado quanto público – proposto pela obra nos levou ao desenvolvimento de procedimentos relacionais que nos ajudam a construir o acontecimento cênico com a contribuição ativa do espectador e do espaço ocupado. A reflexão feita aqui é essencial para a continuidade da elaboração de tais procedimentos, que já possuem desdobramentos nas nossas ações artísticas subsequentes à criação do espetáculo.

 

Eu escrevo um DIÁRIO de bordo.

 

Escrever um DIÁRIO a partir de registros de processos de criação é como me encerrar numa câmara de espelhos, onde vemos o reflexo do reflexo do reflexo do reflexo...

 

1As fichas técnicas dos espetáculos da Trilogia Oiticica se encontram no apêndice.

 

2Em 2009, a companhia criou o espetáculo Nucleares, concebido para ser apresentado em

espaços cênicos. O espetáculo foi revisitado em 2011 e passou a chamar-se Nucleares na Rua, sob a influência das experimentações da companhia no espaço urbano. Como a segunda versão está localizada no tempo depois da criação de Penetráveis, referencio este trabalho como o terceiro da Trilogia Oiticica apenas por uma questão cronológica.

 

3O núcleo artístico do coletivo é composto por Ana Vitória Bella, Victor Nóvoa e por mim. Entro em detalhes sobre A Digna no Capítulo 3: Entre Vãos.

 

4A Trilogia do Despejo é composta pelos espetáculos Condomínio Nova Era (2014), Entre Vãos (2016) e uma terceira obra em atual fase de pesquisa, com estreia prevista para 2018. As fichas técnicas de cada espetáculo da trilogia se encontram no apêndice.

Link para o Texto completo :

o_caos_que_submerge_aguas_silenciosas.pdf

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